“O mundo móvel é irreversível”

A mobilidade veio para ficar. A opinião foi unânime entre os oradores da terceira edição do Mobile Forum Portugal, que levou ao Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, o tema da mobilidade em Portugal.
Os executivos de algumas das empresas tecnológicas de maior peso em Portugal pararam para fazer um ponto da situação do negócio da mobilidade em Portugal e lançar pistas para o futuro. A iniciativa foi organizada pela Associação da Economia Digital (ACEPI) em conjunto com a Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC) e a associação internacional Mobile Marketing Association (MMA).
“Time to wake up”. Foi assim que João Couto, membro da direção da APDC, deu o pontapé de partida para a sessão, alertando para a necessidade de “acordar” para refletir sobre o rumo do setor das TIC, que atravessa agora “uma fase extraordinária”.
Este tempo de mudança é em muito alimentado pela infiltração de dispositivos móveis, como smartphones e tablets, no quotidiano de milhões de pessoas em todo o mundo. “O mundo móvel é irreversível e vai mudar todas as nossas interações, em todos os dispositivos: telemóvel, tablet, pc e IoT. A indústria [de TIC] tem por isso um potencial enorme de crescimento”, sublinhou o orador. Mas nos últimos anos a indústria perdeu dois mil milhões de euros em valor. E é urgente “colocar o setor de novo na rota de crescimento”, alertou João Couto.
Os números da mobilidade
Os mais recentes indicadores sobre a “era móvel” provam que esta é uma realidade a que as empresas devem estar atentas. No primeiro painel do evento, João Matos Gomes, responsável de serviços de consultoria na Capgemini Portugal, falou do peso do mobile na economia, que, em 2020, será de 3900 mil milhões de dólares, o que representa um crescimento de 30% face a 2014.

Segundo o orador, o setor mobile vai ficar a dever este desenvolvimento à evolução dos smartphones, um segmento que deverá crescer 15% até 2020, e à “revolução das coisas”, que está agora a dar os primeiros passos, e que se espera que conecte mais de “50 milhões de coisas”, desde vestuário a peças de mobiliário, nos próximos anos.
Relógios inteligentes, aparelhos de controlo de fitness e equipamentos conectados de assistência médica começam já a ganhar expressão. Mas espera-se que a adoção da Internet das Coisas se estenda às empresas, nomeadamente nas áreas de seguros, engenharia, indústria e manufatura. Como João Matos Gomes explicou à audiência, as linhas de produção poderão ser equipadas com sensores que captam informação e afetam em tempo real o modo de produção.
Por estas razões, João Matos Gomes coroou o mobile como “um acelerador da transformação de negócios”, com capacidade para despoletar novos modelos de criação de valor, mesmo em setores inesperados. Foi o caso da Uber, clarificou o orador. A startup de tecnologia americana penetrou num mercado de baixo valor, o dos táxis, “igualando a oferta de transporte e a necessidade desse serviço”, e criando em simultâneo uma relação próxima com o cliente.
“E o que se segue?”, perguntou o responsável de serviços de consultoria, para logo responder: pagamentos móveis, wearables, integração automóvel, desafios relacionados com a proteção de dados, e muito mais, serão algumas das dimensões do mundo (ainda mais) móvel que se avizinha.
Como transformar o mobile em negócio
É através dos novos serviços e soluções, como os que foram apresentados no segundo painel desta edição do Mobile Forum Portugal, que começamos a vislumbrar os contornos da economia vindoura, em muito dominada pela força da mobilidade.
Neste contexto, “o desafio é transformar o mobile em negócio”, introduziu a jornalista Fátima Caçador, a moderadora desta sessão em que os oradores deram a conhecer produtos e serviços assentes no mobile. Uma vaga de soluções inovadoras que querem transformar o modocomo as pessoas se relacionam com a empresa, gerem a sua produtividade, se entretêm ou até mesmo como fazem compras.
Jean-François Gaudy, Chief Innovation Officer da GFI, deu o exemplo da Company Hub, uma aplicação móvel desenvolvida pela multinacional, que dá ao trabalhador acesso a informação relevante da sua empresa, recorrendo a fontes internas (feeds, CRM, etc.) e fontes externas, como notícias da web que se adequam ao perfil do utilizador e à sua agenda e rede de contactos.
Se as pessoas já “respiram mobilidade a nível pessoal”, porque não transportar esta vantagem para o plano profissional? É esta a ideia da GFI, que acredita que as empresas têm a ganhar com a imersão na mobilidade corporativa, de forma a aumentar a produtividade dos trabalhadores.
Da tecnológica Ericsson, veio o CTO, Joaquim Santos. Para o executivo, “o mobile é a chave para uma sociedade em rede”. Uma sociedade em que “tudo” estará ligado, e que tem nos dias de hoje as suas raízes, com muitos dispositivos já conectados. Daqui, virão novas lógicas de consumo e uma “inovação exponencial nas áreas das TIC”, acredita.
Mas tudo isto cairá por terra se não houver “uma boa performance de rede”. Como explicou o CTO aos participantes, “ 25% dos utilizadores de mobile sai do site se a página web não surgir ao fim de quatro segundos”.

A terceira oradora deste painel foi Paula Panarra, diretora de marketing e operações da Microsoft Portugal. Saindo da cúpula da empresa tecnológica, Paula mostrou como o mobile está a transformar os negócios no país. Agora, há “pequenas empresas que começam globais”, como a Lisbon Labs, uma startup criativa com sede na capital portuguesa, mas que chega a todo o mundo com as suas aplicações de entretenimento.
Outro exemplo é a tecnológica Talkdesk, criada por dois alunos do Instituto Superior Técnico, que tomou conta de Sillicon Valley com o seu sistema de software que permite às empresas criar um call center em minutos. Paula Panarra contou ainda a história de sucesso da Muzzley, conhecida como “a startup portuguesa da Internet das Coisas”, que desenvolveu uma plataforma que possibilita ao utilizador interagir com todos os seus dispositivos conectados, desde o candeeiro do quarto à televisão da sala. Com apenas 18 empregados, a empresa está avaliada em mil milhões de euros.
Mas as potencialidades do mobile não se ficam por aqui. Também negócios tradicionais viram no mobile uma oportunidade para melhorarem serviços já existentes. Foi o caso da app utilizada pelos jogadores do Benfica, que alinha o treino dos atletas com os objetivos da equipa, e a MB Way, uma aplicação da SIBS que transportou o multibanco para o telemóvel.
Paula Panarra ergueu o pulso para mostrar a sua Microsoft Band, que, em interação com uma aplicação no telemóvel, ajuda o utilizador a ser mais saudável e produtivo. Um dispositivo que nunca descansa. Para além de registar o ritmo cardíaco, os passos e consumo de calorias, está atento à qualidade de sono do utilizador, medindo quanto tempo leva a adormecer e o número de horas que descansa durante a noite.
Também Teresa Mesquita, diretora do departamento de gestão de produtos e serviços da SIBS, deu o exemplo do MB Way, como uma aplicação capaz de revolucionar o quotidiano das pessoas, em particular, o modo como consomem.
Num assalto às estatísticas, falou das finalidades para as quais os portugueses utilizam o smartphone no que toca ao consumo. De entre os utilizadores deste dispositivo, com menos de 35 anos, são já oito em cada dez os que o utilizam para comparar preços dentro da loja. Entre os jovens na faixa etária dos 18 aos 24 anos, 52 por cento pega no smartphone na hora de fazer compras online, um valor que vai diminuindo à medida que avançamos nos grupos de idades. Quando se trata de enviar dinheiro pelo smartphone, os portugueses retraem-se mais, com apenas 21% dos jovens entre os 18 e 24 anos a utilizar este meio, e 11% das pessoas entre os 35 e os 44 anos.
De acordo com Teresa Mesquita, o conforto (27%) e conveniência (20%) são os fatores que mais influenciam os portugueses na escolha de um método de pagamento online. E poderão ser serviços como o MB Way, desenvolvido pela SIBS, a dar aos consumidores o que mais valorizam. Este serviço permite fazer pagamentos e transferências no imediato recorrendo apenas ao número de telemóvel, a que fica associada uma conta bancária, e uma palavra-passe.
E haverá mercado? De acordo com a executiva da SIBS, sim. “Na Europa, 81% dos pagamentos são realizados em dinheiro, pelo que há uma oportunidade para os desmaterializar”, explicou à audiência.
Atualmente, o MB Way já está disponível em 14 bancos, o que representa 95% dos cartões em Portugal, afirmou Teresa Mesquita.
Que a intenção da mobilidade é facilitar a vida dos utilizadores, já percebemos. No trabalho, em casa, na rua. Mas será fácil levar estas inovações até ao público? Foi a questão que a moderadora, Fátima Caçador, lançou, depois da exposição dos quatro oradores.
Por exemplo, do lado das empresas. “Que problemas terão na adaptação ao mundo mobile? Será o custo das soluções?”, perguntou a Jean-François Gaudy. Mas o executivo da GFI colocou o problema do lado da “contextualização das IoT”, sublinhando a necessidade de se saber quais os dispositivos que vão ser conectados.
Outro ponto de interrogação, desta vez dirigido a Paula Panarra: “Vamos conseguir massificar estes exemplos de aplicação móvel?”. A diretora de marketing da Microsoft Portugal acredita que sim. “Portugal tem capacidade para receber a mobilidade e criar novos modelos de negócio”, afirmou. E a gigante tecnológica já está a dar o seu contributo: “a Microsoft tem um programa de apoio às startups, o Programa Restart. Para além do mentoring, disponibilizamos uma sala para que estas empresas possam receber clientes e fazer reuniões”.
Apesar de a mobilidade corporativa ser ainda incipiente em Portugal, Paula Panarra disse que “vai haver tendência para adotar o mundo digital”. E que, nalguns casos, será mais fácil para as pequenas e médias empresas adotarem modelos de mobilidade e ferramentas online do que para as grandes organizações.
Quando questionada sobre a concorrência entre a Apple Pay, o sistema de pagamento móvel da Apple, e o a MB Way, da SIBS, Teresa Mesquita referiu que “ o serviço da Apple é diferente, mas é benéfico que grandes players tragam este tipo de soluções, para ajudar a mudar hábitos”. E acrescentou que “a adesão [à MB Way] está a exceder as expetativas”.
Para onde vamos?
No último painel do evento, foi tempo de traçar perspetivas para o futuro do negócio da mobilidade em Portugal. “Um futuro que tem um coração antigo”, observou o moderador Francisco Maria Balsemão, porque “temos de olhar o passado para perceber como vamos evoluir”.
Tiago Flores, diretor de marketing de produto da Samsung Portugal, acredita que o consumidor é o agente principal desta transformação, em particular o consumidor mais jovem. “É a geração milénio que está a liderar esta mudança de paradigma. Trata a loja online por loja, é muito conectada e espera a interação dos produtos e serviços”, afirmou.

E as organizações estão conscientes de que a tecnologia é a ferramenta-rainha para responder a este desafio. Por isso, “agora os profissionais de TI sentam-se à mesa com os gestores de topo, algo que não acontecia no passado”, explicou Tiago Flores.
Outra tendência que as empresas devem seguir é a da convergência, defendeu o diretor de marketing da Samsung, acrescentando que “75% dos consumidores completam tarefas pessoais no trabalho”. Agora o consumidor quer tratar de questões da empresa do mesmo modo que utiliza o Facebook, o Youtube ou o Twitter. E não aceita ferramentas de trabalhos inferiores àquelas que utiliza na sua vida pessoal. Cabe às empresas tecnológicas oferecem produtos e serviços que vão ao encontro desta procura.
Entre os representantes dos três operadores em Portugal, a importância da convergência foi um ponto unânime. António Margato, consumer marketing director da Vodafone, explicou que operadora percebeu que as necessidades dos clientes “passam pelo acesso a vários serviços”. E foi nesse sentido que a Vodafone alargou a sua oferta, com um investimento simultâneo na rede móvel e rede fixa.
Do lado da NOS, Duarte Sousa Lopes, diretor responsável pelo negócio móvel da empresa, disse que a convergência vai continuar a ser um das principais apostas. Mas sem esquecer a melhoria da banda larga móvel e o segmento jovem, em que a empresa se tem destacado.
João Epifânio, diretor responsável pelo negócio móvel da PT, mostrou-se confiante no futuro da empresa enquanto “líder no 4P, no 5P e na banda larga”, uma posição que se deverá manter apesar da alteração bolsista.