Serão os carros conectados um futuro próximo ou ambição desmedida?

Os carros conectados, ou connected cars, são já um segmento que tem sido alvo dos olhares atentos tanto de empresas automobilísticas como de fabricantes de software. Considerados por muitos como o próximo estágio da indústria automóvel, estas “máquinas” pretendem integrar os mais avançados sistemas de conectividade nos nossos veículos, de tal forma que estes passarão a ser mais dispositivos móveis diluídos na dimensão online do que meros meios de transporte. Apesar do entusiasmo demonstrado por consumidores, marcas de automóveis e criadores de software, a disseminação dos connected cars poderá não constar do futuro próximo.

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Ouvimos muito falar em conectividade, em redes de dispositivos, em Internet das Coisas. A ideia de um mundo interligado, onde os mais diversos dispositivos comunicam entre si independentemente, está fortemente presente nas mentes e estratégias de muitas empresas. Vários grandes nomes do universo tecnológico têm formado alianças com fabricantes de automóveis e têm desembolsado quantias consideráveis na investigação e desenvolvimento de sistemas e soluções que visam catapultar a indústria automobilística para a seguinte fase da evolução tecnológica.

Uma nova Era da indústria automóvel?

Cobrindo os mercados alemão, espanhol, brasileiro, britânico e norte-americano, um estudo realizado pela operadora Telefónica (Connected Car Industry Report 2014) revelou que, até 2020, 90 por cento dos automóveis, a nível mundial, virão equipados de fábrica com sistemas de conectividade, comparativamente aos 10 por cento registados em 2014.

Os sistemas de conexão do automóvel à rede reconfigurarão o tradicional paradigma de “carro” a que estamos habituados. Assim, os connected cars integrarão uma série de novas funcionalidades, desde o entretenimento, à navegação, informação de desempenho e segurança/monitorização do veículo.

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Não obstante a multiplicidade de avanços tecnológicos já apresentados no âmbito da automobilística, o futuro dos carros conectados, segundo o estudo, afigura-se ainda turvo, visto que o mercado começou agora a dar os primeiros passos e a aliança entre as indústrias tecnológica e automóvel tem ainda muitas arestas a limar.

Para que estes novos automóveis possam deixar de ser uma utopia das obras cinematográficas de ficção científica, é preciso que exista uma simbiose entre as empresas tecnológicas, as fabricantes de automóveis e os fornecedores de serviços de Internet. Só assim poderão os connected cars esperar difundir-se pelos mercados mundiais.

O estudo da Telefónica demonstrou que 73 por cento dos condutores considera de vital importância as funcionalidades de segurança e de diagnóstico do veículo.

Em 2014, 71 por cento dos condutores estava interessado em utilizar, ou utilizava, já serviços de conexão nos seus automóveis. Por outro lado, 80 por cento acreditava que muito em breve os carros disporiam do mesmo nível de conectividade de que hoje dispõem os nossos dispositivos móveis.

A análise da Telefónica concluiu que dentro de três a cinco anos o mercado dos carros conectados beneficiará de um poderoso crescimento, mas um amplo espectro de barreiras assombra ainda este emergente mar de oportunidades de negócio, dificultando o seu desenvolvimento.

Apoiada em informações avançadas pela consultora Machina Research e pela Telefónica Digital, a revista Forbes deu a conhecer alguns dos obstáculos que poderão atrasar a chegada dos carros conectados. Um dos problemas que impede que os connected cars atinjam em breve os mercados mundiais reside nos ciclos de vida dos smartphones e dos carros.

Considerando que grande parte dos sistemas de conectividade para automóveis está associado a dispositivos móveis, podemos afirmar que estes dois frutos do progresso tecnológico estão, de alguma forma, dependentes um do outro. Em comparação, o ciclo de vida de um smartphone é consideravelmente inferior ao de um carro. Ora, se um dos elementos da parelha mover-se mais rápido do que o outro, é difícil conseguir uma aliança e integração eficiente e rentável. As atualizações para dispositivos móveis (seja ao nível do hardware, seja ao nível de programas e aplicações) são quase constantes, ao passo que os upgrades para automóveis acontecem em ciclos de cinco anos.

Um novo paradigma de “carro”, uma série de novos receios

Tendo em conta que no ano de 2020 o mercado global de componentes e serviços de conectividade assomará aos 170 mil milhões de dólares (face aos 30 mil milhões registados hoje), a consultora McKinsey & Company, através de um estudo feito a dois mil novos compradores de carros do Brasil, China, Alemanha e Estados Unidos, disse que os receios associados à segurança dos sistemas informáticos dos carros e preocupações sobre a privacidade dos dados dos condutores poderão atuar como anestésico do crescimento do mercado dos automóveis conectados.

Outra questão que surge associada aos connected cars prende-se com os pagamentos adicionais por serviços de conectividade. Em vez de efetuarem um pagamento único, os condutores terão de pagar periodicamente, através de modelos de subscrição, os serviços fornecidos pelas empresas que alimentam as funcionalidades de conectividade do carro. Dos inquiridos, apenas uma porção de 35 por cento estaria disposta a desembolsar cem dólares adicionais para integrar o seu smartphone no automóvel. Já 21 por cento afirmou que abriria os cordões à bolsa para ter acesso a serviços de conectividade, efetuando os pagamentos sob planos de subscrição.

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Já no que concerne à exposição dos carros a ataques cibernéticos, tanto a Alemanha como o Brasil (com 59 por cento) foram os dois países que mais se mostraram receosos face à possibilidade de os sistemas dos seus connected cars serem hackeados, colocando a sua segurança em risco, através da manipulação, por exemplo, do sistema de travagem. Os Estados Unidos, com 43 por cento, foi o país que, dos quatro, se demonstrou menos preocupado com questão dos ciberataques aos seus carros conectados.

Por um lado, os condutores veem nos sistemas de conectividade grande potencial e utilidade. Por outro, receiam uma maior exposição a ameaças, com a crescente imiscuição da tecnologia na indústria automóvel. Aspetos como estes deixam os fabricantes de automóveis e empresas de software na corda bamba, sem saber quais os investimentos mais rentáveis, e em que medida são os connected cars uma realidade concretizável.

Na indústria tecnológica, empresas como a SAP, a Google e a IBM têm alimentado ativamente a evolução do mercado dos carros conectados.

SAP e BMW

No início de 2014, no decorrer do Mobile World Congress em Barcelona, a SAP anunciou a parceria travada com a BMW Group Research and Technology. Esta união visava o desenvolvimento de uma solução tecnológica que assenta na plataforma SAP HANA Cloud, permitindo o fornecimento de serviços personalizados, em prol do perfil, localização e percurso escolhido pelo condutor.

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No protótipo reúnem-se serviços e ofertas disponibilizadas por diversos fornecedores parceiros da BMW. O condutor tem, assim, acesso a informações como tarifas rodoviárias e sugestões de estacionamento.

“Com uma plataforma estandardizada, os fabricantes de automóveis irão ter acesso a uma rede de prestadores de serviços, permitindo-lhes que desenvolvam e tirem partido da rede da SAP com pouco trabalho adicional”, disse a SAP.

IBM e Continental

A IBM, por sua vez, traçou, no final de 2013, um acordo de parceria com a fabricante alemã de componentes automóveis Continental, que visa a conceção de soluções potenciadoras da conectividade automóvel. Assente nas ferramentas de análise de Big Data da IBM, a empresa germânica quer criar uma plataforma cloud que leve até aos condutores informações sobre, por exemplo, o congestionamento de uma determinada rodovia, permitindo que o utilizador, devidamente informado, escolha o percurso mais adequado. Este sistema é alimentado por sensores integrados no automóvel ou por uma rede de partilha de informações entre veículos.

A International Business Machines está confinante de que a nova geração de automóveis integrará já “interactividade móvel e uma navegação mais inteligente” e funcionalidades que vão para além do estacionamento automático, como a ligação à Internet.

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Adicionalmente, a IBM está a trabalhar com a Continental no desenvolvimento de um sistema que tornará a experiência in-car bastante mais pessoal. Através de tecnologia de inteligência artificial e de reconhecimento vocal, o protótipo conseguirá diferenciar os vários ocupantes do veículo, oferecendo uma comunicação personalizada.

“As boas práticas e a experiência da IBM em áreas como Big Data, Analytics e Mobile, e a capacidade em oferecer serviços através de uma plataforma de cloud altamente escalável, são fundamentais para criar as bases de uma nova geração de veículos inteligentes respondendo  às necessidades de mobilidade dos condutores de hoje”, sublinhou António Pires dos Santos, Business Development Executive da IBM para Espanha, Portugal, Grécia e Israel.

António Pires dos Santos, Business Development Executive da IBM para Espanha, Portugal, Grécia e Israel, asseverou que o desenvolvimento das ferramentas de análise de dados e a evolução das capacidades mobile, aliados a plataformas cloud fornecedores dos mais diversos serviços, serão o combustível da próxima geração de automóveis.

Google e o Self-driving Car

No início de 2014, também a Google revelou interesse em deixar a sua marca no setor dos carros conectados. No dia seis de janeiro do ano passado, durante o evento internacional de electrónica de consumo CES, foi anunciada a criação da Open Automotive Alliance (OAA). Sob a tutela da Google, esta aliança entre fabricantes de automóveis e líderes da dimensão tecnológica alvejava a introdução do sistema operativo Android nos veículos, tornando-o um padrão da indústria dos connected cars. Os membros da OAA (como a LG, a Panasonic, a Nvidia, a Audi, a Ford, a Maserati e a Nissan) acreditam que uma única plataforma aberta – neste caso o SO Android – fomentaria o forte e rápido crescimento do mercado dos carros conectados, evitando contendas entre marcas e obstáculos gerados por interoperabilidade de sistemas e componentes.

Em maio, a Google deu a conhecer a mundo os seus planos para a criação de um veículo totalmente autónomo, dispensado a intervenção ativa de um condutor. Desde então, a empresa liderada por Larry Page tem vindo a conduzir uma série de testes ao mais diversos aspetos dos seus protótipos, como o sistema de travagem, a velocidade de reação dos vários sensores do veículo e a segurança e integridade do software.

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Aquando da sua intervenção no dia 14 de janeiro no Automotive News World Congress de Detroit, Chris Urmson, diretor do projeto do carro self-driving da Google, disse que a empresa está continuamente a trabalhar no sentido de criar um automóvel que dispense um volante e quaisquer pedais, e que seja guiado somente pelos sensores e programas da Google.

Poderá então pensar-se que um carro que se conduz autonomamente, sem a intervenção ativa de um condutor, possa ser, com efeito, o próximo nível da evolução automóvel. A ser verdade, será o carro meramente equipado com sistemas de conectividade apenas um estágio embrionário da real próxima geração de carros? Até que ponto será rentável o investimento em connected cars, sabendo que os seus primos self-driving poderão estar na iminência da materialização?

Windows sobre rodas

A Microsoft tem também procurado deixar a sua marca no setor dos carros conectados. Com o Windows Embedded Automotive 7, uma plataforma desenhada especificamente para se acomodar à indústria automóvel, a Microsoft permite que os fabricantes coloquem ao dispor dos seus clientes uma panóplia de novos serviços e atualizações regulares.

Este sistema operativo para os automóveis do futuro visa potenciar as capacidades de conectividade dos veículos. O Windows Embedded Automotive 7 permite que os condutores tenham acesso a funcionalidades como contactos telefónicos, calendários, correio eletrónico e mensagens escritas, através da fusão entre o automóvel e o smartphone.

Ainda, a Microsoft Tellme Speech é uma tecnologia de reconhecimento de voz que, através da sua capacidade de imersão e facilidade de utilização, possibilita que os condutores possam aceder a um amplo espetro de funcionalidades sem por em risco a sua segurança rodoviária.

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A plataforma aberta da Microsoft torna possível a criação de soluções que monitorizem o desempenho do automóvel, notificando o condutor sempre que um problema for detetado, ou controlando a movimentação da viatura. Os sensores integrados no automóvel, e alimentados pelo Embedded Automotive 7, arquitetam diagnósticos sobre o veículo, enviando os respetivos relatórios para o computador pessoal ou dispositivos móveis do utilizador.

Assim, no âmbito dos connected cars, os grandes investimentos da Microsoft têm sido aplicados no desenvolvimento de soluções que permitam que os condutores, nomeadamente de marcas como a Nissan, a KIA ou a Fiat, tenham acesso a um leque de funcionalidades que otimizem a experiência in car. O Windows Embedded Automotive 7 tem alimentado vários sistemas fornecedores de serviços de informação e entretenimento (infotainment), aos quais o acesso é possível sem quebrar a concentração do condutor.

David Walker, Experience Designer para automóveis com Windows Embedded, acredita que a plataforma foi desenhada em torno do conceito de “segurança” e com o intuito de potenciá-lo ao nível da condução.

De acordo com o responsável, o condutor não deverá tirar os olhos da estrada por mais de meio segundo. Desta forma, a Microsoft desenvolveu uma solução heads up display, através da qual o condutor não tem de desviar o olhar do caminho para visualizar uma determinada informação ou aceder a uma qualquer funcionalidade. Este sistema projeta no para-brisas do automóvel as informações a que o condutor quer aceder, sem que este tenha de quebrar a concentração e colocar a sua segurança, e a dos outros, em risco.

As vendas dos parceiros automobilísticos da Microsoft, segundo consta, têm sido fortemente beneficiadas pela integração de sistemas inteligentes em alguns modelos, registando uma taxa de adesão superior a 50 por cento.

Ericsson e a nova geração de automóveis

A fabricante sueca de equipamentos de telecomunicações Ericsson desenvolveu a Connected Vehicle Cloud (CVC), uma plataforma que permite que os condutores tenham acesso a ofertas disponibilizadas por fornecedores de serviços, em parceria com marcas da indústria automobilística.

A CVC, que pretende agregar vários serviços, funciona também como uma base de informações. Os vários condutores podem partilhar as mais variadas informações, e, através destas, os fabricantes podem também aperfeiçoar os serviços oferecidos aos seus clientes, com base nas opiniões veiculadas.

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Em 2013, no mês de novembro, a Volvo lançou o Sensus Connected Touch, uma solução de informação e entretenimento que apoia-se no CVC da Ericsson. O Sensus oferece funcionalidades como correio eletrónico, acesso à Internet, streaming de música, sistemas de navegação e pagamento de parquímetro.

Lex Kerssemakers, vice-presidente sénior da divisão de estratégia de produto da Volvo, afirmou que a fabricante acredita que o futuro da indústria automóvel passa inevitavelmente pela conectividade. “Esta é uma estrategicamente importante parte dos investimentos da Volvo no futuro, onde planeamos conquistar uma posição de liderança”, disse o executivo, referindo-se à parceria com a Ericsson e à adoção da sua solução.

A Connected Vehicle Cloud serviu ainda de base para a conceção do AT&T Drive, fruto de uma parceria anunciada em 2014. Através da solução da operadora norte-americana, os condutores podem, por exemplo, recorrer a aplicações, a serviços de telecomunicações, a informação e entretenimento.

Consumidor: o Grande Aquiteto do mercado

No que toca aos carros conectados, ouve-se muita discussão em torno das tecnologias, dos serviços, dos componentes automóveis. Não obstante a devida relevância que cada um destes elementos encerra em si, é de referir que são os consumidores que, in extremis, ditam o rumo do mercado.

Um estudo da Accenture de 2014, cobrindo mais de 14 mil consumidores e 12 países (Estados Unidos, China, França, Itália, Brasil, Malásia, Coreia do Sul, Alemanha, Espanha, Reino Unido, Indonésia e África do Sul) evidenciou que cerca de metade dos condutores utiliza já serviços de informação de trânsito e que 37 por cento recorre a serviços de meteorologia.

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Contudo, parece que são as funcionalidades de infotainment (informação e entretenimento) que conseguem conquistar o maior número de condutores. Acesso à Internet, streaming de música e serviços de notícias estão entre as funcionalidades mais utilizadas e mais desejadas pelos consumidores. Quanto a sistemas de controlo remoto, apenas 30 por cento dos condutores faz uso deles, diz o estudo.

A crescente conectividade não vem só alterar os automóveis como se conhecem, mas também atua como reformadora do tradicional paradigma de comercialização dos veículos. Tendo em conta que os connected cars são alimentados por inúmeros serviços, constantemente actualizados, não pode esperar-se que a compra de um destes carros seja feita com um único pagamento.

À semelhança dos mais variados serviços de que se usufrui nos smartphones ou tablets sob planos de subscrição, também os serviços oferecidos através dos sistemas de conectividade destes automóveis estarão sujeitos a modelos de pagamento periódico.

A investigação da Accenture demonstrou que 28 por cento dos condutores prefere pagar pelos serviços numa base mensal, através de cartão de crédito ou PayPal.

Mais de metade dos inquiridos mostrou grande interesse em sistema in-car de navegação online, de receção e retribuição de mensagens, de controlo do smartphone através de comando integrados no volante e de streaming de música.

A maioria dos condutores acredita que o sistema operativo do seu carro deve ser o mesmo sobre o qual opera o seu dispositivo móvel.

O pouco explorado, mas indubitavelmente fértil, mercado dos carros conectados está repleto de oportunidades de negócio, isso não se coloca em questão. No entanto, muitas são ainda os fatores limitativos que circunscrevem o seu crescimento. Parece que, pelo menos por agora, investir nos connected cars é um tiro no escuro, embora muitas empresas tenham atuado no sentido de provar precisamente o contrário.